A violência sob o olhar das crianças da Maré

Em setembro, a agência de reportagens e de investigação Publica lançou uma convocação para seleção de projetos de reportagens graças a uma plataforma de financiamento coletivo. Marie Naudascher e Patrick Vanier puderam assim financiar sua reportagem sobre a violência vista pelas crianças do Projeto Uerê na Maré.

Cerca de cento e cinquenta idéias foram apresentadas e cinquenta foram submetidas ao voto de 808 doadores. « Os internautas deram dinheiro, sem conhecer as propostas, sabendo que apoiavam o jornalismo investigativo e um novo modo de pesquisa, baseado no colaborativo », explica Natalia Viana, fundadora da agência Publica (www.apublica.org)

Entre os doze premiados das bolsas de 6 mil reais atribuídas pelo público, três jornalistas franceses independentes aliás, os franceses foram os únicos estrangeiros a se apresentar. Anne Vigna, jornalista independente, escreveu para a Agência Publica um retrato de Amarildo, o homem que teria sido assassinado pelos policiais da UPP da Rocinha "Amarildo, presente !". Para essas novas reportagens financiadas pelos leitores, ela vai pesquisar sobre a qualidade da água da torneira e a daágua mineral no Rio, São Paulo e Paris (ver ->["Água de beber : a indústria da água mineral no Brasil"-

>http://www.apublica.org/Reportagem-Publica/portfolio/e-agua-prabeber/] obteve um franco sucesso entre os internautas : acessar o link : http://www.apublica.org/Reportagem-Publica/portfolio/e-agua-pra-beber/

Marie Naudascher, jornalista independente e Patrick Vanier, jornalista e cineasta, começaram seu trabalho depois de também terem conquistado uma bolsa. A pesquisa deles pretende compreender o impacto da violência sobre as crianças da favela da Maré. Para ler a proposta , « Geração caveirão », acessar o link :

http://www.apublica.org/Reportagem-Publica/portfolio/geracao-caveirao/

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Patrick Vanier e Marie Naudascher no Complexo da Maré

O "jornalismo colaborativo", uma nova liberdade redacional


O jornalismo colaborativo , mais conhecido pela fórmula inglesa "crowdfunding", é um método ao qual os profissionais independentes recorrem cada vez mais. De preferência ao submeter um tema a uma redação de televisão ou da imprensa escrita, muitas vezes presa a formatos pré-determinados ou a um certo rigor de tempo e de orçamento, os jornalistas propõem o tema da investigação, estabelecem um orçamento e um cronograma que submetem em seguida ao voto popular. « Graças a esse princípio, podemos também propor o que os canais franceses não vêem, e que queremos contar, com o apoio dos brasileiros », explica Marie Naudascher, que trabalha no Brasil há quatro anos.

Marie Naudascher colaborou em inúmeras reportagens no Rio, mas ela gosta de ter tempo para observar e conhecer as crianças : « passamos uma semana sentados no meio das crianças da escola, reaprendemos a multiplicar, e tentamos compreender a pedagogia da Yvonne, a diretora, inspirada nos países em guerra nos quais ela baseou seus métodos ». « Compreender e filmar o impacto da violência sobre os mais jovens me interessa há muito tempo e Publica nos oferece tempo e um suporte para publicarmos nosso trabalho », explica Patrick Vanier, que realizou vários documentários na Bolívia e no Chile.

No total, 808 doadores permitiram reunir a soma mínima para que os doze projetos pudessem ser concretizados. Esses mecenas de um novo gênero constituem de agora em diante um grande conselho editorial que acompanha o avanço do trabalho em tempo real. "É exigente e rico, pois nossos 808 produtores podem nos dar conselhos, contatos ou fazer perguntas, ao mesmo tempo em que nos possibilitam o luxo de trabalhar com total liberdade », observa Marie Naudascher.

A montagem do filme filme de 15min será alvo de uma colaboração com os coordenadores de Publica e os direitos de divulgação serão livres, sob o princípio de "creative commons".


O projeto Uerê, "reaprender a aprender" apesar da violência

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Yvonne Bezerra de Mello e seus "Uerês" (Fonte Projet Uerê)

A escolha do tema se impôs a Marie Naudascher e Patrick Vanier quando cobriam as manifestações de junho: " as pessoas reivindicavam saúde e educação pública de mais qualidade, lembra Patrick. Conhecíamos o Projeto Uerê e sentimos que era o momento certo para mobilizar os brasileiros em torno dessa questão".

O Projeto Uerê é « um laboratório » gosta de repetir Patrick Vanier. Para as crianças marcadas pela violência onipresente da comunidade da Maré. Em torno de uma pedagogia desenvolvida por Yvonne Bezerra de Mello, os professores propõem aos alunos exercícios de cálculo mental, de memória, tudo em um ritmo rápido para reativar o processo cognitivo e pôr em marcha o processo de aprendizagem retardado pelos traumatismos sofridos.

Cerca de 450 crianças de 6 a 16 anos frequentam a escola fora do tempo escolar normal. Desde 1998, são cerca de 3 mil crianças beneficiadas pela pedagogia Uerê-Mello.

Marie Naudascher e Patrick Vanier ficaram chocados com o olhar implacável de uma parte da sociedade dirigido por vezes a essas crianças das favelas. Marie se lembra que «quando Yvonne publicou uma entrevista no Globo sobre os meninos de rua com os quais ela trabalhou, ela recebeu e-mails acusando-a de educar « pequenos bandidos » ». Com a reportagem sobre aqueles a quem chamaram de « Geração caveirão », uma geração de crianças que tremem com a aproximação de um blindado negro da polícia militar, eles querem mostrar as consequências das políticas de segurança baseadas no confronto e táticas de guerra sobre as crianças.

« Maré é uma comunidade muito interessante, há lá também um museu que conta a história de seus primeiros moradores e o tecido associativo e militante é muito presente,o que não impediu o massacre de nove moradores,entre os quais uma criança da escola em junho último », observa Marie Naudascher.

Encontro em janeiro, para descobrir o resultado dessa investigação jornalística de um novo gênero.


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publié le 26/01/2015

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