Agnès e seus alunos no meio do desfile da Portela!

Entre as batidas de tambor, os apitos e os chocalhos, um sotaque francês é às vezes ouvido no meio da bateria de uma das maiores escolas de samba do Rio de Janeiro, a tradicional Portela. Agnès du Trémolet, nascida na França em Lyon, professora da escola primaria no Lycée Molière e carioca desde 2013, foi adotada pelos ritmistas da escola de samba. Este ano, ela desfilará como sempre sob as asas da águia Portelense, levando com ela um grupo de alunos do Liceu francês. Veja o retrato de uma de uma francesa com os seus alunos no coração da Portela.

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Como foi que começou a sua historia com a Portela?

Primeiro, eu me encontrei com os integrantes da bateria da Portela na Inglaterra. Estávamos participando da cerimonia de encerramento dos JO de Londres e a Portela representava o Brasil. O mestre da Portela, junto com outro mestre inglês, estava dirigindo a bateria, com os seus 80 ritmistas. Além disso, uns 10 sambistas da Portela nos apoiavam.

Você estudou musica?

Não. Eu descobri o samba em setembro de 2007, em Lyon, com o Bloco Cenário.

Quais foram as suas primeiras impressões quando você chegou na quadra da Portela?

A primeira vez que eu cheguei na Portela, foi em fevereiro de 2012, no ultimo ensaio da escola, antes do carnaval. Eu achei aquilo maravilhoso, era como se fosse um mundo encantado.

E agora, quais são as suas impressões quando você chega lá?

Eu continuo achando que a Portela é uma das melhores escolas de samba do Rio. Hoje em dia, quando eu chego lá eu me sinto em casa.

Você é a única estrangeira na Portela? A única na bateria?

Estrangeira eu não sei, mas francesa, com certeza. Na bateria, vários franceses são convidados pelo Mestre Nilo, mas eles só tocam durante o carnaval, eu sou a única francesa que participa durante o ano inteiro.

Como você é vista pelos outros membros da escola, e pelo pessoal do bairro?

A maioria das pessoas é supersimpática. Ficam orgulhosos que uma gringuinha se interesse pela escola e more no bairro de Madureira. Sou a francesinha deles, que chegou da França com duas malinhas. Até na rua as pessoas me adotaram, de certa maneira. Toda vez que eu encontro o senhorzinho que hoje em dia vende frutas ali na esquina, um portelense da velha guarda, ele me abraça e chama os amigos para me apresentar. Ele se sente orgulhoso que eu faça parte da bateria, é engraçado.

Que lugar ocupam hoje na sua vida a Portela, a escola de samba e a cultura do carnaval?

O samba (a musica, não a dança) é indispensável para mim: com o chocalho nas mãos, meus problemas desaparecem! Quando eu toco o samba “Portela na Avenida” fico sorrindo de orelha à orelha: sou a pessoa mais feliz do mundo! Para mim, o carnaval é o desfile das escolas de samba. Confesso não ser muito ligada nos blocos de rua.

Como você faz a ligação do samba com a sua atividade profissional?

O samba é a minha paixão. Às vezes eu trabalho a percussão com os meus alunos. É uma atividade que requer rigor, precisão e concentração. É uma maneira lúdica de trabalhar essas competências, e o retorno dos alunos é ótimo.

Você pode falar um pouco do seu projeto com as crianças?

Quando eu cheguei no Lycée Molière, uma criança me perguntou porque eu morava numa favela, cercada de pessoas sem recursos. Ai eu percebi que precisava urgentemente trabalhar esse assunto. Fui então procurar as riquezas da zona oeste. E foi assim que eu comecei a montar um projeto com o Nilo Sergio, mestre da Portela. O projeto trata das influencias africanas na historia e na cultura brasileira. Os alunos estavam estudando o comércio triangular, a escravidão e a abolição da escravatura e também a escravidão nos tempos modernos: no Brasil, com a professora de português, e na França, comigo. Nós fizemos uma excursão para uma antiga numa fazenda em Barra de Pirai, onde no passado havia escravos. Os alunos tiveram a oportunidade de aprender um pouco sobre os costumes e o dia-a-dia dos escravos, viram os instrumentos de tortura: a história teórica se tornou mais real.
A atual quadra da Portela fica num terreno onde antigamente havia uma fabrica, que foi destruída depois da abolição. Foi a referencia que me permitiu ligar as influencias africanas com a história do Brasil. Durante essa excursão tivemos também uma iniciação ao Jongo. Depois começamos a ter aulas de percussão com a Portela. Alguns diretores da Portela mostraram às crianças todos os instrumentos da bateria, e cada um pode escolher o que preferia. Conclusão, eles nos convidaram a participar dos ensaios e depois a sair com os "Filhos da Águia", a bateria das crianças da Portela.
Ainda sobre as influencias africanas na cultura brasileira, os alunos trabalham também a intolerância religiosa e a descoberta de uma religião que surgiu no Brasil com os escravos: o candomblé. É uma religião que tem raízes na África, mas foi criada no Brasil. As crianças conheceram, com a apresentação de Adriane, os motivos históricos dessa religião e o significado dos diversos orixás. Além disso, mostramos a eles também a influencia africana na alimentação (a cozinheira do colégio preparou uma refeição africana) e estudamos as influencia africana na língua brasileira, como parte do projeto. Este ano, os alunos terão também uma aula de iniciação às danças dos orixás e à capoeira. Com todas essas informações, as crianças preparam uma exposição bilíngue contando as suas descobertas e criam peças de teatro explicando as características de alguns orixás. Nos dois últimos anos, so a minha turma participou do projeto. Outra turma entrou na aula de samba e para o ano que vez varias turmas devem participar da exposição bilíngue.

Como foi que as crianças acompanharam a preparação para o desfile?

Durante o ano inteiro as crianças participam das diversas fases: primeiro a escolha do samba-enredo, depois a gravação de um DVD (graças a vários vídeos do youtube), depois eles visitam a quadra da Portela e o galpão de preparação do desfile das crianças. Eles também foram convidados à visitar o Barracão da Portela na Cidade do Samba. Desta forma, eles ficaram conhecendo as fantasias e os carros alegóricos que vão desfilar segunda-feira no sambódromo.

O que você espea do desfile esse ano?

No desfile dos adultos: 40 pontos para a bateria! No desfile das crianças: ver estrelas nos olhos dos meus alunos.

A Portela vai levar o primeiro lugar?

No ano passado eu tinha certeza que sim, mas acabou que não foi... Agora eu já sei que não dá para saber, vamos ver!

Conheça o projeto de Agnès com as crianças do Lycée Molière na Portela, em Brésil21.tv. Uma reportagem de Anne Vigna :

publié le 06/02/2016

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