Discurso do Presidente para a comemoração dos 200 anos da missão artistica francesa

O Presidente da Republica Francesa, François Hollande, inaugurou com o Ministro da Cultura do Brasil, Marcelo Calero, a exposição “Alegoria às Artes – Léon Pallière”, em comemoração aos 200 anos da chegada da missão artística francesa ao Rio de Janeiro.

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Senhor Ministro, (dirigindo-se a Marcelo Calero, Ministro da Cultura do Brasil),

O Senhor nos dá um grande prazer e nos honra por receber-nos aqui, neste museu, e por sua vontade de se expressar em francês.

Um gesto ao mesmo tempo elegante, educado e arriscado, e nos sabemos que não há elegância se não houver certo risco. E o Senhor respondeu perfeitamente às exigências desta amizade entre a França e o Brasil, que é um dialogo entre as culturas.

O que nos reúne aqui hoje vai além desta obra – por cuja restauração eu aproveito para parabenizá-los – estamos aqui hoje também por causa dos Jogos Olímpicos. Durante vários dias, o Rio vai vivenciar uma enorme mobilização e terá voltada para si toda a atenção da mídia. Milhões e milhões de pessoas - e porque não dizer bilhões de telespectadores – estarão olhando para o Rio. E não será só pelas competições, mas também pela cidade, esta cidade maravilhosa que se transformou para os Jogos Olímpicos.

Eu sei que a população se preocupa e quer saber se os financiamentos assumidos para os Jogos Olímpicos trarão um retorno em termos de bem-estar, em termos de serviços coletivos para os cidadãos. Nós tivemos a oportunidade de visitar com o Prefeito do Rio a nova linha de VLT, que é uma mostra de que graças aos Jogos Olímpicos houve uma melhoria no acesso a lugares essenciais na cidade do Rio de Janeiro.

Quero aproveitar também a ocasião de estar nesse magnifico Museu de Belas Artes do Rio para cumprimentar o Sr. Presidente do Instituto Brasileiro dos Museus, a Sra. Presidente do Instituto do Patrimônio Artístico e Histórico Nacional e a Sra. Diretora do Museu.

Na verdade, este lugar é um símbolo da amizade entre a França e o Brasil, onde obras de artistas franceses estão expostas lado a lado com obras de artistas brasileiros. Tudo isso começou em 1816, há 200 anos, quando a Missão Artística Francesa veio para o Brasil trazendo as artes, a pedido dos próprios brasileiros.

A missão era composta por cerca de vinte pintores, arquitetos, engenheiros e desenhistas, entre os quais – temos que admitir – vários haviam caído em desgraça com a queda do império napoleônico. Às vezes, o exilio pode impulsionar a cultura, mas seria um erro desejar que haja ditaturas para que homens e mulheres livres possam exportar os seus conhecimentos e os seus talentos.

Esta missão veio para cá com um objetivo definido, de fundar uma Academia de Belas Artes e uma Biblioteca Nacional, para divulgar o ensino das artes. Dez anos mais tarde, foi inaugurada aqui no Rio a Academia de Belas Artes, por Joachim Lebreton. Ele, chefe da missão, era um grande artista além de ter sido professor de retórica no colégio da cidade onde eu servi como Prefeito durante anos. Eu me sentia na obrigação vir aqui hoje, para homenageá-lo.

Alguns desses artistas gostaram tanto do Brasil que foram ficando, até ficarem de vez, como foi o caso do pai de Jean-Léon Paillière. Desta maneira, os artistas deixaram suas marcas na arquitetura e no urbanismo da Cidade Maravilhosa, sem duvida a mais francófona de todas as cidades do Brasil.

Podemos dizer que o Rio se parece com Paris, e podemos dizer também que Paris se parece com o Rio, por uma questão de igualdade, pois as mesmas aspirações alimentaram as duas cidades. O arquiteto Grandjean de Montigny participou de diversos projetos realizados aqui, e o pintor Jean Baptiste Debret reconstituiu a viagem pitoresca e histórica do Brasil, que é a principal fonte iconográfica sobre a vida cotidiana no Brasil do inicio do século 19. E podemos citar vários outros exemplos.

Jean-Jacques Rousseau e Auguste Comte viram no Brasil a construção da ideia do progresso. Depois, Victor Hugo escreveu algumas paginas denunciando a escravidão e foi muito bem recebido – pelo menos sua obra - por aqui. E mais tarde, Louis Pasteur também contribuiu na luta contra as doenças que se espalhavam no Brasil.

Para Blaise Cendars, o Brasil era o paraíso na terra e Georges Bernanos considerava o Brasil como a sua segunda pátria; Anatole France foi o primeiro estrangeiro a tornar-se membro da Academia Brasileira de Letras, Claude Levi-Strauss contribuiu com a fundação da Universidade de São Paulo e Oscar Niemeyer construiu seus projetos no Brasil e na França.

Até hoje, vários artistas brasileiros participam do dialogo entre os nossos dois países, como o escritor Paulo Coelho, o fotografo Sebastião Salgado e o compositor Chico Buarque. E muitos outros artistas que estão hoje aqui também contribuem com a promoção da cultura dos dois países.

Nós também criamos situações e ocasiões para celebrarmos juntos, as obras de nossos artistas. Assim, promovemos o ano do Brasil na França em 2005 e o ano da França no Brasil em 2009, cuja chama se mantém acesa através da rede cultural das Alianças Francesas no Brasil. Grandes exposições estão acontecendo agora mesmo aqui no Rio, como a exposição dos pós-impressionistas e também as obras emprestadas pelo Museu Picasso, que serão apresentadas em breve no Rio.

Foi assim que uma missão realizada há 200 anos pôde criar uma amizade entre a França e o Brasil e uma inspiração reciproca. Tanto é que quando os Jogos Olímpicos acontecem no Rio, achamos natural que em breve possam estar acontecendo em Paris, como se houvesse uma continuidade, ainda que tenhamos que passar por Tóquio.

André Malraux, enquanto Ministro da Cultura, visitou Brasília, onde entusiasmado fez a seguinte declaração: “Devemos nos unir por um porvir fraterno, mais do que por um passado em comum”. E ele tinha razão, é claro que temos laços no passado, mas o que conta é podermos abrir novos espaços de criação, em vez de ficarmos com só com a nostalgia do passado.

Hoje, o Brasil é o principal destino de exportação de livros franceses na América Latina. O Brasil produz arte contemporânea com grande dinamismo e o Brasil é nosso parceiro no campo do cinema e das artes cênicas. Nós também temos a ambição de preservar a diversidade cultural, tanto em nossos respectivos países quanto a nível mundial. E eu quero parabenizar a todos pelos esforços feitos ao longo dos últimos anos, no sentido de mostrar que a cultura não é uma mercadoria.

É por tudo isso que o esporte não pode se dissociar da cultura. O mais importante nos Jogos Olímpicos não é a competição nem o espetáculo, e não se trata apenas dos milhões de telespectadores. O que o espirito Olímpico deve representar são os valores universais. Principalmente nesta época em que o fanatismo ataca e o extremismo ameaça, é muito importante que nós possamos nos lembrar desses valores. São os valores Olímpicos e são os valores de nossas Republicas, que fazem parte de nossa cultura e com a qual temos o mesmo dever, de desenvolvimento e de criação.

Agradeço então ao Brasil, agradeço ao Rio por relembrar que os nossos dois países estão ligados e que independentemente das circunstancias, estarão sempre lado a lado, juntos pela cultura e pela liberdade. Obrigado.

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Da esquerda para a direita: Monica Xexéo, diretora do MNBA, Marcelo Calero, ministro da Cultura, François Hollande, presidente da França, Katia Bogea, do Iphan, Marcelo Araújo, do IBram e o embaixador francês Laurent Bili.

publié le 02/09/2016

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