Os Franceses do Rio – Janeiro de 2016 - especial professores

Todo mês, apresentamos a vocês um rápido encontro com Franceses que decidiram vir morar no Rio. Algumas perguntas, sempre as mesmas, traçam os seus perfis e permitem que conheçamos nossa comunidade um pouco mais.

Dominique Boyer, professor de francês: "O Rio é "Sejamos felizes por morar aqui!...""

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Dominique tem 47 anos e mora no Rio há 10 anos. Ele é professor de francês desde que chegou ao Brasil e é o autor do livro "Galicismos, 50 palavras vindas do francês", lançado pela Editora Garcia.

Cidade natal: Saint-Etienne, a cidade "sempre verde"

Bairro do Rio: Largo do Machado

Por que você escolheu o Rio?
Eu já tinha viajado por vários países, mas em 2001, quando atravessei a fronteira da Venezuela para o Brasil, tive uma impressão estranha, de estar chegando em casa! Geralmente, a alfandega não é um lugar muito romântico, mas na alfandega brasileira, pela primeira vez da minha vida, eu gostei dos agentes! Dali eu desci de Manaus para Belém pelo Rio Amazonas, uma viagem inimaginável para um europeu. Depois de ter passado uma semana maravilhosa, estava eu no aeroporto de Belém, voltando para a Venezuela via Manaus, em frente à porta numero 5, quando a locutora do aeroporto anunciou: “Passageiros para São Paulo e Rio de Janeiro, porta numero 3”. Uma emoção imensa, desconhecida e inexplicável, tomou conta de mim, como se eu tivesse que subir naquele voo! Mais tarde, já dentro do meu voo para Manaus, algo me dizia: “Você vai vir morar nesse país”. Claro que na época eu achei aquilo um absurdo, e demorei quatro anos até obedecer. Às vezes é difícil seguir a sua voz interior...

Quais foram as suas primeiras impressões quando você chegou aqui?
Quando eu cheguei ao Rio, ainda com a minha malinha na mão, a cidade me pareceu maravilhosa, o que para mim era normal. A brisa doce como se fosse um carinho, era normal. A MPB como um hino permanente enaltecendo a doçura da vida, isso também era normal. Acordar entre as arvores e admirar o balé dos beija-flores e dos macaquinhos, também era perfeitamente normal, como se a vida fosse feita para ser assim, e que a existência em outros céus e contextos é que era absurda...

Qual a sua ocupação profissional, seus compromissos, a sua principal atividade atualmente?
Eu dou aulas particulares de francês há dez anos, com um prazer que se renova a cada dia. Claro que é muito bom dar aula para uma turma de adolescentes cheios de vida, mas pessoalmente hoje em dia estou preferindo ensinar a um ou dois adultos interessados! Partilhar com os meus simpáticos alunos brasileiros as poesias de Victor Hugo, mostrar os vilarejos da Provence, ensinar a diferencias os diferentes tipos de vinhedos, explicar a Guerra de Cem Anos contra os Ingleses, apresentar o aligot (um purê de batatas com queijo) e as andouillettes (uma espécie de linguiça) – ou seja, assuntos que não tem relação uns com os outros – sem esquecer do particípio passado e tudo isso vendo o nascer do sol na Baia de Guanabara de um prédio de 30 andares ou o por do sol da Pedra do Arpoador, sinceramente é um enorme prazer, dia após dia. Durante os primeiros anos, para responder às perguntas dos meus alunos, eu comecei a escrever um livro sobre as palavras francesas que entraram na língua portuguesa, como “Réveillon”, “Bufê”, “Creche” ou ainda o inenarrável “Crachá”. O livro já foi lançado e os leitores brasileiros se divertem, ficam surpresos de descobrir a origem francesa desses termos, de modo que eu pretendo continuar a escrever, já tenho em mente outros projetos que fazem a ligação entre a França e o Brasil.

O que foi que o Rio mudou em você?
O Rio me permitiu, e eu diria até que me obrigou a viver do jeito que eu tinha vontade. Olhando d’aqui, tenho a impressão que a velha Europa já está saturada de regras e ficando meio esclerosada. Porque será que na França não ensinam a criar empresas, em vez de só formar empregados para que eles tenham o “direito” de ter um trabalho? Não adianta nada oferecer uma ajuda para que as pessoas sobrevivam, seria melhor ajudá-las a viver, a expressar as suas qualidades e a riqueza que cada um tem dentro de si. O Brasil não nos oferece necessariamente nenhuma ajuda, mas assim mesmo vê com bons olhos as iniciativas dos Franceses, e o Rio de Janeiro, por sua vez, com toda a sua alegria, a energia e a liberdade que a cidade nos oferece, praticamente nos obriga a viver plenamente e com alegria! Não nos resta, portanto, outra escolha na Cidade Maravilhosa, além de nos sentirmos realizados!

O que significa ser Carioca, para você?
De brincadeira, eu diria que é o contrario de ser Paulista! Agora falando sério, ser Carioca é estar acima de tudo conectado ao prazer, todo dia, a toda hora, a cada minuto! Isso tem naturalmente aspectos positivos, e podemos dizer que poderíamos até dizer que por terem defendido a ideia da felicidade no momento presente, os filósofos gregos, hedonistas e epicuristas, poderiam vir para cá, já que entre a praia, o amor, a dança, o carnaval, os bares, a música e a consciência, essas filosofias parecem ter se materializado perfeitamente aqui no Rio. Isso inclui certos aspectos negativos também, mas para um estrangeiro, que já conheceu pelo menos mais uma cultura, é possível surfar entre os costumes das diferentes civilizações e ficar com o que for melhor.

Se você tivesse que escolher um lugar do Rio, qual seria?
Uma coisa que eu adoro na minha vida carioca é poder passar de um bairro para o outro. Eu comecei a pintar no Engenho Novo, moro no Largo do Machado, e dou aula no Leblon, em Ipanema, na Urca, na Lagoa, em Botafogo, na Tijuca, e também no Centro. Não consigo me imaginar ficando preso a um bairro só. Aliás, os próprios “Cariocas da Gema” passam mais tempo fora que dentro de casa. É como se você tivesse que escolher uma só nota musical: seria o dó? Seria o mi? Seria o fá? Em todo caso, qualquer escolha reduziria as possibilidades de melodia... No contexto carioca, essa pergunta nem faz muito sentido, pois a cidade parece estar aí justamente para nos ensinar o que é a abundancia. Copacabana é Copacabana. A Lapa é a Lapa. O Leblon é o Leblon. E o Rio de Janeiro, é o Rio de Janeiro!

O Rio em três palavras:
Para mim, o Rio é e sempre será um “Rio descoberto por um Português num dia abençoado de janeiro”. Silêncio. Fiquemos felizes por podermos ter vivido aqui...


Victor Chevallier, professor de tênis: "O Rio é contraste, é ritmo, é experiência!"

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Victor tem 27 anos e mora no Rio há 2 anos. Ele é professor de tênis e fundador da escolinha Tenis Evolution.

Cidade natal: Sainte Mesme (França

Bairro do Rio: Estou procurando um apartamento

Por que você escolheu o Rio?
Eu gosto muito da energia que emana da cidade. É um estilo de vida autêntico, que mistura o barulho da cidade com o ruído das ondas e a tranquilidade de certos lugares da cidade.

Quais foram as suas primeiras impressões quando você chegou aqui?
Cheguei no dia 18 de Novembro de 2013 com a minha mochila de jogar tênis e sem saber onde eu iria passar a primeira noite. Eu lembro que desci do ônibus e fiquei sentado olhando para o mar na praia de Copacabana, então pensei: “Acorda, você não está mais em casa, vai conhecer a cidade, fica aberto que vai dar tudo certo.” Como jovem, a cidade tinha uma porção de coisas boas a oferecer, pelo menos no inicio. A cidade do sorriso, do amor, da natureza, do esporte, dos encontros, da musica... Um pequeno detalhe negativo: a falta de instrução. Fiquei impressionado ao perceber que poucas pessoas ao meu redor podiam ler durante as viagens de ônibus, de trem e de metrô.

Qual a sua ocupação profissional, seus compromissos, a sua principal atividade atualmente?
Eu criei a Tennis Evolution, uma escola de tênis francesa no Rio. Sou professor formado e gosto de ensinar o jogo de tênis a crianças e adultos, em condições bem diferentes dos outros profissionais da cidade. O meu compromisso é de democratizar esse esporte, que ainda é bastante elitista para o meu gosto, para torna-lo acessível à todos. Quero desenvolver atividades nas escolas, eventos para o publico feminino, projetos sociais... Idéias não faltam!

O que foi que o Rio mudou em você?
O Rio mudou a minha visão da vida, de um modo geral. Com tantas diferenças sociais ao meu redor, estou aprendendo a dar valor à sorte que eu tenho de poder viver trabalhando com o que eu gosto de fazer. Essa é a mensagem que eu procuro transmitir nas minhas aulas. A minha filosofia é: “Gosto de ver vocês chegarem na quadra com um sorriso e irem embora sorrindo também.” A cidade é uma mistura de brutalidade (sem descrição) e de suavidade. Precisamos entender isso, para aproveitar o que ela tem de melhor. No meu caso, o aprendizado ainda não terminou.

O que significa ser Carioca, para você?
É viver com simplicidade, é se encontrar com os amigos para escutar musica, e claro, tomar uma cerveja!

Se você tivesse que escolher um lugar do Rio, qual seria?
Sem hesitação: o CCBB. É um lugar que eu visito com frequência, onde acontecem varias exposições temporárias que me fazem viajar sempre.

O Rio em três palavras:
Contraste, ritmo, experiência.


Simon Corbi, treinador de rugby: "O Rio é Contrastes, Saudade, Alegria!"

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Simon tem 35 anos e mora no Rio há 4 anos. Ele é Chefe de Projetos na empresa francesa Essilor no Brasil e dedica a maior parte do seu tempo livre a ser treinador de Rugby no Clube Guanabara Rugby.

Cidade natal: Parentis-em-Born (França)

Bairro do Rio: Botafogo

Por que você escolheu o Rio?
Eu já era gostava muito da América Latina, e me apaixonei pelo Rio de Janeiro durante uma viagem que eu fiz com os bombeiros de Parentis-em-Born (a cidade onde eu nasci), em 2004. Depois dessa viagem, passei anos procurando um motivo para voltar e conferir se a primeira impressão que eu tive, de estar “em casa” ainda estava lá, ou se tinha sido só fogo de palha. Acabei voltando 5 anos depois, para o casamento de uma amiga Brasileira, e percebi que aquela magia aconteceu de novo. Tive que tomar decisões difíceis, para conseguir voltar alguns meses mais tarde, para trabalhar dois meses na ONG ‘Rio Voluntario’. Durante um ano eu mantive a minha conexão com o Rio através do meu trabalho à distancia para essa ONG e também pelo inicio de uma relação com a minha atual esposa e mãe do nosso filho. No fim de 2009 eu voltei, dessa vez para passar 6 meses: foi quando eu ganhei o Beija-Flor, um prêmio oferecido aos 10 melhores voluntários do ano. Na mesma época, fiquei sabendo que a minha esposa Adriana estava gravida. Assim mesmo, decidimos manter nossos planos iniciais e fomos morar um ano e meio na França, para que Adriana pudesse terminar o seu doutorado de Geografia e conhecer a vida francesa em Toulouse, no sudoeste. Finalmente, em junho de 2011 voltamos e nos instalamos no Rio. Eu diria, portanto, que foi por paixão e por amor que eu escolhi o Rio de Janeiro.

Quais foram as suas primeiras impressões quando você chegou aqui?
Tive a sensação de uma felicidade incontrolável, de uma alegria e viver contagiante. A sensação de ter morado aqui a vida inteira.

Qual a sua ocupação profissional, seus compromissos, a sua principal atividade atualmente?
Atualmente eu sou Chefe de Projetos no setor de informática da Essilor Brasil e passo a maior parte do meu tempo livre, há 2 anos, como treinador de Rugby no Clube Guanabara Rugby. A maioria das pessoas pensa que o Rugby nem existe no Brasil, mas temos um campeonato de alta qualidade e uma verdadeira cultura do “7”, principalmente entre as meninas, que são campeãs da América do Sul há 10 anos e ocupam atualmente o 10° lugar no ranking mundial de Rugby de 7. No fim de 2015, com a ajuda do patrocinador TOTAL, ganhamos o campeonato fluminense de Rugby de 7 masculino e o SPAC Lions, que é o maior e mais tradicional torneio de Rugby de 7 no Brasil. Uma prova de que apesar da nossa falta de estrutura, conseguimos realizar coisas boas.

O que foi que o Rio mudou em você?
Aqui eu me descobri, profissionalmente e pessoalmente. O Rio fez de mim uma pessoa menos exigente, mais confiante e mais paciente, mesmo se com relação a este ultimo ponto ainda tenho muito a aprender.

O que significa ser Carioca, para você?
A informalidade e a adaptabilidade.

Se você tivesse que escolher um lugar do Rio, qual seria?
A Pedra da Gávea, pela sensação de liberdade e pela possibilidade que ela nos dá, de apreciarmos a beleza natural do Rio de Janeiro.

O Rio em três palavras:
Contrastes, Saudade, Alegria.


Maryam Kaba, professora de Afrovibe™: "O Rio é Surpreendente, Desestabilizador, Paradoxal!"

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Maryam tem 37 ans e mora no Rio há 2 anos. Ela é ‘coach’ esportiva, dançarina e professora de Afrovibe™, uma disciplina que ela criou na França em 2012 com sua parceira Doris Martel. Ela é mãe adotiva de uma menininha de 5 anos.

Cidade de origem: Vitry-sur-Seine e Paris

Bairro do Rio: Gloria, e depois Leme

Por que você escolheu o Rio?
Já fazia 2 anos que eu tinha vontade de mudar de ares, de sair de Paris, de conhecer outra cultura, de aprender outra língua… Cheguei aqui pela primeira vez em 2012 para visitar um amigo. Passei um mês entre Brasília, Salvador, o Rio e seus arredores. Gostei tanto, que voltei em fevereiro de 2013 para o Carnaval. Logo depois, decidi arrumar as minhas coisas em paris para poder me mudar no fim de 2013! Minha profissão é perfeitamente exportável, e não há cidade melhor que o Rio para trabalhar com a dança e o esporte. Aqui temos uma grande mistura, e isso tem a ver comigo, um pouco da África, às vezes um pouco da Ásia, da Europa, dos Estados Unidos. Eu realmente me identifiquei com a cidade, cheia de paradoxos, com sua poderosa energia positiva e acolhedora ao mesmo tempo que uma violência sempre presente.

Quais foram as suas primeiras impressões quando você chegou aqui?
Eu me senti em casa, eu vim ao Rio pela primeira vez em 2012, fiquei hospedada no Vidigal e lá eu tinha a impressão de estar em Saint Louis, no Senegal, tudo me era muito familiar! Logo vi também as desigualdades, senti o racismo e entendi que tinha um longo caminho pela frente…

Qual a sua ocupação profissional, seus compromissos, a sua principal atividade atualmente?
Eu sou “coach” esportiva, dançarina e professora de Afrovibe™, uma disciplina que eu criei na França em 2012 com a minha parceira Doris Martel, que nós desenvolvemos juntas no Brasil, nos Estados Unidos e também na França. É uma mistura de malhação com dança africana, que agrada muito o pessoal do Rio.

O que foi que o Rio mudou em você?
Viver cada dia como se fosse o último, e aproveitar bem cada momento. Eu queria recuperar certos valores, como a espontaneidade, voltar ao que é essencial. Eu queria me desapegar das coisas materiais, e aqui no Rio eu encontrei tudo isso. A cidade me ajudou a achar isso tudo dentro de mim.

O que significa ser Carioca, para você?
É saber “deixar rolar”, deixar correr, deixar as coisas acontecerem sem se estressar, saber relativizar e aproveitar cada momento. É amar a vida.

Se você tivesse que escolher um lugar do Rio, qual seria?
Eu gosto da Pedra Bonita, adoro passear na pista Claudio Coutinho na trilha da Urca, a Joatinga e toda a natureza exuberante que o Rio nos dá! E tem também o Centro e a Lapa! Uma coisa não tem nada a ver com a outra, mas o Rio é isso, é paradoxal !

O Rio em três palavras:
Surpreendente, Desestabilizador, Paradoxal.

publié le 16/02/2016

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