Os Franceses do Rio - Março 2016 - especial guias

Todo mês, apresentamos a vocês um rápido encontro com Franceses que decidiram vir morar no Rio. Algumas perguntas, sempre as mesmas, traçam os seus perfis e permitem que conheçamos nossa comunidade um pouco mais. Este mês, quem responde às nossas perguntas são quatro guias, uma forma de agradecer a quem dedica seu tempo à Cidade Maravilhosa.

Véronique Cléret: "Rio é imprevisível, envolvente, ritmado!"

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Véronique tem 48 anos, ela mora no Rio de Janeiro há 5 anos e no Brasil há 20 anos. Ela tem uma filha de 16 anos e se define como "uma Francesa da Ilha Grande"!

Cidade natal: Chaville (Hauts de Seine, sudoeste de Paris)

Bairro do Rio: Laranjeiras

Porque você escolheu o Rio?
Há 20 anos, eu resolvi vir para o Brasil porque queria estar tranquila, perto da natureza. Evitei São Paulo e o Rio, fui me instalar na Ilha Grande. A montanha, o mar, a floresta, a falta de carros, um verdadeiro paraíso!!! Na ilha eu morei durante 14 anos, me casei e tive uma filha. Há 6 anos, quis vir morar para o Rio, para que a minha filha tivesse mais oportunidades de estudos. Eu queria que ela frequentasse a escola francesa, mas não queria viver na loucura da cidade grande, então acabei voltando para a França, em Toulouse, onde eu já tinha morado antes. Minha filha se adaptou bem, mas para mim foi mais complicado: um ano depois, entendi que seria difícil para mim, viver fora do Brasil. Então voltamos para cá. Dessa vez viemos morar no Rio, para estar perto da escola francesa e junto da floresta, onde faço minhas caminhadas. O Rio tem um potencial turístico imenso.

Quais foram as suas primeiras impressões quando você chegou por aqui?
Minha primeira impressão foi de que a população é muito jovem, moderna e acolhedora. Com o passar dos anos, fui percebendo que a população é de fato jovem e acolhedora, mas menos moderna do que parece; os códigos morais e os preconceitos são antigos.

Qual a sua ocupação profissional, o seu compromisso, a sua principal atividade atualmente?
A minha principal atividade é apaixonante e cheia de surpresas: eu mostro às pessoas a cidade do Rio e o modo de vida dos seus habitantes. Como guia de turismo, organizo as visitas em função do gosto dos clientes, que entram em contato comigo geralmente pela Internet. Fazemos caminhadas na Floresta da Tijuca, percorremos diversos bairros a pé ou de ônibus, visitamos os pontos turísticos clássicos, como o Corcovado e o Pão de Açúcar... Além disso, eu também levo as pessoas às feiras livres e às rodas de samba para comer uma feijoada. Às vezes também faço passeios de barco e trilhas na Ilha Grande. A maioria dos meus clientes é de Franceses, mas como eu também falo inglês, alemão e espanhol, as agências me chamam quando precisam de um guia poliglota. Sou independente e vivo de acordo com a temporada: em algumas épocas temos fartura, em outras nem tanto. O meu objetivo é fazer com que as pessoas conheçam as belezas da cidade, os seus segredos e a sua história. Aos poucos vamos entendendo como funciona a sociedade brasileira: o sistema de saúde, a educação, as diferenças sociais... A ideia é questionar os clichês que se pode ter do Brasil, quando se vem de fora.

O que é que o Rio mudou em você?
Eu me tornei mais flexível, menos radical. Aprendi com o Brasil a não dar a importância maior aos problemas, e sim às soluções.

Ser Carioca, para você é o quê?
Caminhar na Praia do Flamengo, num domingo de manhã.

Se você tivesse que escolher um lugar do Rio, qual seria?
A Floresta da Tijuca.

O Rio em três palavras:
Imprevisível, envolvente, ritmado.

Stéphane Pételet: "Rio é historia, amor, festa"

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Stéphane Petelet tem 54 anos, ele chegou no Rio pela primeira vez em 1970 com o seu pai. Ele tem dois filhos e mora em Santa Teresa há 6 ans, depois de ter morado 20 anos em Ipanema.

Cidade natal: Paris

Bairro do Rio: Santa Teresa

Porque você escolheu o Rio?
Eu não escolhi o Rio, quando vim pela primeira vez. Na verdade quando eu cheguei aqui em 1970 com o meu pai, nos já tínhamos passado por uns 20 países. Eu resolvi mesmo vir morar no Rio em 1984, por causa da tranquilidade e da gentileza dos Cariocas, pelo prazer de ter a praia e a floresta em plena cidade.

Quais foram as suas primeiras impressões quando você chegou por aqui?
A primeira impressão de que eu me lembro, é de estar num taxi indo à toda velocidade para a Tijuca, onde o meu pai tinha uma amiga austríaca, ligada à cultura. A alegria natural das pessoas representou para mim a imagem da felicidade. Índios, mulatos, negros e brancos, todos misturados: eu vi que aqui poderia haver um lugarzinho para mim também, nessa terra longínqua. Finalmente eu estava num porto seguro.

Qual a sua ocupação profissional, o seu compromisso, a sua principal atividade atualmente?
Depois de editar uma revistinha de bolso de turismo, cheia de publicidades e entrevistas, organizei festas na Fundição Progresso, gerenciei um bar musical na Fundação Planetário, na Gávea, onde estava sempre rodeado de estudantes, depois fui para São Cristovão, fazer um curso de confeitaria francesa. O meu primeiro filho estava para nascer e a mãe me pediu para colocar os pés no chão... Desde então eu me tornei Guia de Turismo junto ao Ministério do Turismo Brasileiro, 20 anos se passaram e eu continuo a ter o mesmo prazer. O meu compromisso profissional é de estar atento ao que os visitantes esperam e responder de maneira agradável e útil, conforme as expectativas de cada um. Quero apresentar a sociedade Carioca da melhor maneira possível, tento humildemente fazer com que as pessoas sintam o que há de mais autentico e natural por aqui, mostrando os valores culturais e históricos da cidade do Rio de Janeiro.

O que é que o Rio mudou em você?
O Rio me fez deixar de ser um parisiense cartesiano e materialista para acreditar na física quântica. A mente é obrigada a se abrir, quando convivemos com tantas diferenças étnicas, sociais e culturais.

Ser Carioca, para você é o quê?
Ser Carioca é ser o Índio original, o Português voluntario e o Negro da África.
Ser Carioca é fazer parte dessa mistura otimista em prol do bem-estar.
Ser Carioca é gostar de festejar, é estar feliz de viver a cada dia.

Se você tivesse que escolher um lugar do Rio, qual seria?
O lugar que eu escolho é Santa Teresa, por sua tranquilidade bucólica e atemporal.

O Rio em três palavras:
O Rio em três combinações de três palavras:
Historia – cultura – miscigenação
Bem estar – amor – malemolência
Calor – praia – festa.

Michelle Marie: "Rio é beleza natural, sol, paixão!"

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Michelle mora no Rio há 29 anos, nunca deixou de ficar encatada com as maravilhas da natureza, tornando-se uma verdadeira carioca!

Cidade natal: Casablanca, Marrocos

Bairro do Rio: Botafogo

Porque você escolheu o Rio?
O Brasil, especialmente o Rio de Janeiro sempre me fascinou, desde a adolescência. Eu sonhava em conhecer o país por causa das belezas naturais, do clima tropical, da musica, do povo festeiro e da diversidade cultural. Depois de ter vindo varias vezes de férias para cá, fui ficando cada vez mais apaixonada: voltar para Paris era cada vez mais difícil. O meu sonho finalmente se tornou realidade em 1987, quando eu abandonei definitivamente o mundo cinzento de Paris e me mudei para o Rio.

Quais foram as suas primeiras impressões quando você chegou por aqui?
Tive a impressão de estar na cidade mais bonita do mundo! A beleza do cenário é de tirar o folego: o mar, a montanha, a vegetação exuberante, as praias paradisíacas, as paisagens fantásticas, a musica rica e variada, e o povo, tão informal e festeiro.

Qual a sua ocupação profissional, o seu compromisso, a sua principal atividade atualmente?
Depois de ter trabalhado para uma multinacional francesa e no Consulado da França como secretaria e tradutora, resolvi me tornar guia de turismo, uma profissão que me permite mostrar aos turistas francófonos outras facetas da cidade, muitas vezes pouco exploradas: o centro histórico e seu patrimônio são de uma riqueza inestimável, os vestígios da época do Império, as ruelas pitorescas, são lugares carregados de história, e é claro, temos os museus, os teatros, os cinemas e os Centros Culturais que oferecem também uma programação variada e enriquecedora.

O que é que o Rio mudou em você?
O Rio me permitiu levar uma vida mais descontraída e com mais qualidade, me fez ser mais esportiva, menos estressada e também mais criativa. A imensa riqueza natural e cultural que temos aqui me inspira a desenhar e pintar aquarelas, nas horas de laser.

Ser Carioca, para você é o quê?
É um privilégio, é viver na cidade mais bonita do mundo, aonde turistas do mundo inteiro vem passar as férias. É ter que escolher entre ir à praia ou se refrescar numa cachoeira, passear na maior floresta urbana do mundo e poder observar a riqueza infinita da fauna e da flora, é escalar o morro para admirar uma paisagem sem igual, e, claro, é vibrar no carnaval!!!!

Se você tivesse que escolher um lugar do Rio, qual seria?
Eu escolho a Urca, bairro residencial cheio de charme, um recanto de paz perto do mar e do Pão de Açúcar, o tradicional cartão postal do Rio. Escolho também o Horto, pitoresco e bucólico, no pé da floresta, com os seus maravilhosos ateliês de artistas nas casas coloniais.

O Rio em três palavras:
Beleza natural, sol, paixão.

Emma Monteiro da Rocha: " Rio é abraço, sorriso, jeitinho"

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Emma tem 46 anos e mora há 8 anos no Rio. Ela tem 2 filhos e é guia de turismo há 3 anos.

Cidade natal: Nascida em Toulon e adotada por Guethary, no País Basco

Bairro do Rio: Arpoador

Porque você escolheu o Rio?
Foi uma decisão conjunta. O meu companheiro (e futuro marido;)) recebeu uma proposta de trabalho, então nos desistimos da compra de uma casa em Anglet, na França, fizemos as malas e desembarcamos aqui no Rio. Apaixonados pelo mar e por tudo o que é ligado ao mar, não tivemos duvida. Viemos para passar 2 anos, quando eu estava gravida de 8 meses. Por sorte, me deixaram embarcar! E assim começou a nossa vida carioca.

Quais foram as suas primeiras impressões quando você chegou por aqui?
Há duas facetas. Quando chegamos, ficamos impressionados. Digo ficamos, porque a experiência foi compartilhada. Ficamos calados durante um tempo. As primeiras imagens que eu lembro são as do caminho entre o Aeroporto do Galeão e a Zona Sul. Na época, não havia tapumes cobrindo as favelas do complexo da Maré. A realidade urbana nos saltou aos olhos, e a luminosidade carioca provocou uma explosão de alegria. À direita, as favelas, à esquerda, o nascer do sol. O reflexo laranja nos telhados de zinco, a igreja da Penha linda ao fundo, a luz cor-de-rosa no Corcovado, a Lagoa resplandecente, essas imagens ficaram gravadas na minha retina. Encontramos o nosso ninho no Arpoador e eu dei à luz um mês depois. Olhando para um lado vemos o mar, entre Ipanema e Copacabana, como se estivéssemos encrustados nas pedras.

Qual a sua ocupação profissional, o seu compromisso, a sua principal atividade atualmente?
Eu sou guia há 3 anos. Comecei de maneira informal, com amigos e com a família. Quando cheguei, continuei com as vendas de chapéus panamá que eu tinha em algumas lojas de Bordeaux, na França, e nos Países Bascos, na fronteira com a Espanha. Cheguei a importar os chapéus para cá, pensando em prolongar a minha estadia. As vendas se tornaram uma atividade esporádica, permitindo que eu conhecesse o Rio com calma e aproveitasse ao máximo o tempo com a minha filha.
Assim que eu cheguei, me aproximei da Associação Rio-Accueil. Sendo mãe de primeira viagem, foi muito bom encontrar pessoas com quem eu trocava ideias e serviços. Hoje em dia eu já me tornei uma carioca, agora é a minha vez de receber as pessoas.

A decisão de ficar por aqui mudou tudo. Depois do nascimento de nosso filho, fiz o curso de Guia de Turismo e comecei a trabalhar. Foi uma revelação. Passei a ter mais contato com os brasileiros e comecei a visitar outros lugares, outros endereços. A minha sede de novidades, de conhecimentos e de encontros não parou de ser alimentada, aqui na “Cidade Maravilhosa”.

Eu sempre gostei muito de história. A história do Brasil e a história do Rio são fascinantes, riquíssimas e cheias de detalhes. Temos visitas culturais, bairros escondidos... Eu ofereço geralmente os circuitos clássicos, mas também tenho um cardápio ‘à la carte’, mais profundo. Os passeios esportivos e aquáticos, as trilhas, tudo é festa para mim. Tenho a impressão de não estar trabalhando, fico embevecida com a beleza do Rio nas visitas. Acompanhar os turistas pode ser um trabalho intenso, mas é sempre muito gratificante. Atualmente estou organizando viagens programadas, com uma agencia. Além disso, estou preparando um projeto para explorar a minha paixão pela fotografia.

O que é que o Rio mudou em você?
Mais do que uma mudança, eu diria que o Rio exaltou o epicurismo em mim. O Rio me fez aprender a enxergar o outro. Com as pequenas e grandes diferenças culturais, morar fora de seu país é sempre uma experiência riquíssima. Eu vi a precariedade, a pobreza e a violência, embora não esteja engajada em uma ação social especifica. Às vezes os turistas me pedem para ir à favela, mas eu não faço o ‘tour’. Fui algumas vezes por minha conta, para conhecer os programas sociais. Faço trilhas no Vidigal e no Morro da Babilônia onde tenho amigos que estão desenvolvendo projetos. Ah sim! Um último detalhe: demorou, mas a impaciência que eu tinha com relação aos prazos de espera, desapareceu!!!

Ser Carioca, para você é o quê?
Desde que eu li a definição de Vinicius de Moraes, gravada nos azulejos do Vidigal, acho que é a melhor definição dos cariocas, entre os quais me incluo. A frase é a seguinte: “Ser Carioca é gostar de estar sempre chegando e não querer nunca ir embora”. Literalmente, “estar sempre chegando” explica em parte o fato de todo mundo chegar sempre atrasado nos compromissos. Resumindo, viva o momento presente! Outra definição, mais pessoal: Carioca também quer dizer “energia”, a energia de Yemanjá.

Se você tivesse que escolher um lugar do Rio, qual seria?
Sem duvida alguma, a pedra do Arpoador.

O Rio em três palavras:
Abraço, sorriso, jeitinho.

publié le 17/03/2016

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