Os Franceses do Rio - Setembro 2015

Todo mês, apresentamos a vocês um rápido encontro com Franceses que decidiram vir morar no Rio. Algumas perguntas, sempre as mesmas, traçam os seus perfis e permitem que conheçamos nossa comunidade um pouco mais.

Bertrand Rigot-Muller: "o Rio é “Abençoado por Deus!”"

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Bertrand tem 72 anos, ele foi Adido Cultural do Consulado Geral da França e mora no Rio há 49 anos.

Cidade natal: Lyon

Bairro do Rio: Laranjeiras

Porque você escolheu o Rio?
Eu guardo na memoria imagens muito nítidas de quando cheguei aqui no Rio. Eu estava em Paris durante os eventos de maio de 68 e desembarquei aqui no dia 17 de junho do mesmo ano, enquanto a cidade estava em plena efervescência. O Rio estava sendo sacudido por grandes manifestações dos estudantes que protestavam contra a ditadura militar. Poucos dias depois da minha chegada, participei da famosa “Passeata dos 100.000”, em que Vladimir Palmeira, José Dirceu e outros líderes estudantis arrebanhavam uma multidão na Cinelândia.

Quais foram as suas primeiras impressões quando você chegou aqui?
Eu guardo na memoria imagens muito nítidas de quando cheguei aqui no Rio. Eu estava em Paris durante os eventos de maio de 68 e desembarquei aqui no dia 17 de junho do mesmo ano, enquanto a cidade estava em plena efervescência. O Rio estava sendo sacudido por grandes manifestações dos estudantes que protestavam contra a ditadura militar. Poucos dias depois da minha chegada, participei da famosa “Passeata dos 100.000”, em que Vladimir Palmeira, José Dirceu e outros líderes estudantis arrebanhavam uma multidão na Cinelândia.

Qual a sua ocupação profissional, seus compromissos, a sua principal atividade atualmente?
Depois da Fundação Getúlio Vargas, tive varias atividades, entre outras fui assistente do cineasta Jacques Baratier. Juntos, nós fizemos vários documentários, inclusive um sobre os índios do Brasil para a televisão francesa. Em seguida, fui convidado pela Embaixada da França para criar um núcleo áudio visual no serviço cultural do consulado do Rio, até que me tornei um dos responsáveis pela missão cultural, e lá passei a maior parte da minha vida, me dedicando ao desenvolvimento de intercâmbios artísticos entre os nossos dois países. Em 2007 eu me aposentei e criei a empresa Soluções Urbanas, especializada no desenvolvimento de projetos no setor do micro urbanismo. Atualmente estamos trabalhando em dois projetos, no bairro da Glória: Um é a restauração de um prédio tombado pelo patrimônio histórico, o Templo da Humanidade, e uma reforma para transforma-lo em espaço cultural. O prédio foi o primeiro templo positivista do mundo, onde era praticada, até poucos anos atrás, a religião Positivista fundada por Auguste Comte. Além disso, estou desenvolvendo uma parceria com duas jovens arquitetas francesas, num projeto conjunto de gestão urbana, no bairro da Glória. Trata-se de criar uma estrutura na qual a sociedade civil e as empresas possam se associar às coletividades locais, a fim de colocar em prática algumas soluções sustentáveis, destinadas a melhorar as condições da vida urbana.
Paralelamente às minhas atividades profissionais, participei ativamente de associações de franceses no Brasil, principalmente na ADFE, que atualmente se chama “Français du Monde”. Atendendo aos pedidos dos meus compatriotas no Brasil, me candidatei a um cargo junto à Assembleia dos Franceses do Exterior, tendo sido eleito em 2009 para um mandato de cinco anos. Foi uma experiência interessante, durante a qual eu tomei consciência da importância de nossa representação politica. Sem poderem ir às ruas para defenderem os seus interesses, os Franceses do exterior são muitas vezes atingidos pelos cortes de orçamento, infelizmente frequentes em épocas de crise. Sem esse sistema de representação, que liga os franceses às ações de nossos senadores e deputados, seria difícil evitarmos o desmantelamento de nossa rede de apoio (consulados, escolas, instituições culturais, agencias de cooperação) bem como o corte dos orçamentos destinados às bolsas escolares e à proteção social.

O que foi que o Rio mudou em você?
O fato de passar muitos anos em contato com uma cultura tão forte e diversificada não deixa ninguém indiferente. Eu aprendi a conhecer outras verdades e a ponderar as minhas convicções.

O que significa ser Carioca, para você?
Ser cordial, gentil e saber praticar a espontaneidade do abraço.

Se você tivesse que escolher um lugar do Rio, qual seria?
Assistir ao nascer do sol por trás do Pão de Açúcar num céu de fogo (lá do alto de laranjeiras, onde nós moramos).

O Rio em três palavras:
“Abençoado por Deus!” (Jorge Ben Jor)

Cédric Gottesmann: "O Rio é “bom humor, beleza, informalidade.” "

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Cédric tem 56 anos, ele é o Diretor do teatro da Maison de France e mora no Rio há 19 anos.

Cidade natal: Nice

Bairro do Rio: Ipanema

Porque você escolheu o Rio?
Foi amor à primeira vista.

Quais foram as suas primeiras impressões quando chegou aqui?
A simpatia dos cariocas, a informalidade, a beleza da cidade, a vida ao ar livre.

Qual a sua ocupação profissional, seus compromissos, a sua principal atividade atualmente?
Eu sou o diretor do Teatro da Maison de France.

O que foi que o Rio mudou em você?
O Rio me desestressou, me ensinou que a felicidade pode existir na simplicidade, no calor humano.

O que significa ser Carioca, para você?
É beber uma caipirinha no Arpoador e aplaudir o pôr do sol.

Se você tivesse que escolher um lugar do Rio, qual seria?
A Praia Vermelha, de onde podemos olhar para o mar sem ver nenhum prédio, do mesmo jeito que os Portugueses descobriram o Rio...

O Rio em três palavras:
Bom humor, beleza, informalidade.

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Edgar Duvivier: ""Ser Carioca, é ter o mar no coração""

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Edgar tem 60 anos, ele é escultor, musico e videasta, um francês nascido no Rio.

cidade natal: Rio de Janeiro

Bairro do Rio: Gávea

Porque você escolheu morar no Rio?
Eu nasci no Rio de Janeiro, o meu nome completo é EDGAR MENDES DE MORAES (da minha mãe) DUVIVIER (do meu pai) e se eu sou francês é em parte devido ao nome do meu pai, à minha educação no Liceu Francês, por afinidade com a cultura e por amor à França. A minha família é de origem francesa, mas os meus bisavôs se estabeleceram no Brasil no inicio do século XX, de modo que do ponto de vista jurídico o meu pai já não era francês quando eu nasci. Eu me tornei francês novamente, por assim dizer, por ter me casado com Hélène Sidet, que é francesa, e depois me casei com Olivia Byington, com quem tive três filhos: Gregorio, Barbara e Theodora Duvivier, os três são franceses. O meu caso é o oposto do dos franceses que escolhem o Brasil, eu sou um brasileiro que escolheu a França.

Qual a sua ocupação profissional, seus compromissos, sua principal atividade atualmente?
Posso dizer que hoje em dia a minha atividade principal é a escultura, apesar de trabalhar também com musica e vídeos, além de ter acabado de escrever o livro “Carnet de Voyages” que será lançado ainda esse ano. Eu moro na Gávea, mais exatamente na Rua Sergio Porto, onde tenho o meu atelier de escultura e de pintura, além do meu estúdio de musica e cinema.

O que significa ser Carioca, para você?
Para mim, ser Carioca é ter o mar no coração. É também viver cercado pelo mar e pela montanha. A grandiosidade da natureza faz com que sintamos a presença do sagrado, mesmo que a gente não seja nem um pouco religioso. Podemos sentir como somos pequenos e com isso somos convidados a respeitar a Natureza, a apreciar a vida, a viver em estado de reverencia, apesar de nos vermos muitas vezes confrontados com a pobreza, a miséria, a violência, as enormes diferenças sociais, a poluição e todos os problemas inerentes às grandes cidades.

Se você tivesse que escolher um lugar do Rio, qual seria?
Se eu tivesse que escolher um lugar do Rio, seria o Arpoador, e também o Corcovado, que é tão importante para a cidade como a Torre Eiffel é para Paris. Como eu tenho várias esculturas instaladas pelos quatro cantos da cidade, cada uma com sua historia, o meu próximo livro vai se chamar: “Guia do Rio - Monumentos e Recordações”.

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Maxime Rovere: "O Rio é “Explosões, Gozo, Caos.” "

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Maxime tem 35 anos, ele é professor de filosofia na PUC-Rio e mora no Rio há 3 meses.

Cidade natal: Monaco

Bairro do Rio: Santa Teresa

Porque você escolheu o Rio?
Como filósofo e como francês, lecionar e dar continuidade às minhas pesquisas no Rio é uma maneira de renovar o que chamamos de “filosofia continental”. Existem varias maneiras de fazer isso: Uma delas é completar nossa herança, incluindo certas praticas e alguns conceitos novos – que sejam dos Tupinambás, do Candomblé, do Tropicalistas ou dos Modernistas - e um outro jeito é aprendermos a contar a nossa historia e conceber a nossa própria tradição de uma maneira diferente, não só do ponto de vista mediterrâneo. Na verdade, o Brasil foi muito importante no nascimento da modernidade europeia e em troca, o pensamento francês sempre foi muito importante no Brasil, especialmente no Rio e em São Paulo. Foi seguindo esse tipo de trocas que eu cheguei aqui. “Tupi or not tupi, that is the question”, escreveu Oswald de Andrade. Muito estimulante!

Quais foram as suas primeiras impressões quando chegou aqui?
A PUC organizou um concurso de contratação e as exigências me seduziram imediatamente. Quando eu percebi que o departamento de Filosofia estava disposto a contratar um pesquisador que não falasse francês, desde que quisesse trabalhar e aprender, foi essa abertura de espirito que me encantou. Claro que ha também a beleza dos morros e das praias; mas o Rio é uma cidade muito mais cativante do que o que se vê nos cartões postais. Acontecem aqui relações muito felizes, com uma experiência única (profissionais, humanas, estéticas), e de relações muito infelizes (sociais, urbanas, ambientais) que são desafios importantes a serem considerados. Isso me saltou aos olhos. Eu imaginei que morando aqui, eu iria poder trabalhar tranquilamente, mantendo o meu espirito alerta, permanecendo sensível ao mesmo tempo à doçura da vida e às questões do mundo contemporâneo.

Qual a sua ocupação profissional, seus compromissos, sua principal atividade profissional atualmente?
Eu ocupo o cargo de Professor Assistente na Universidade PUC, por um prazo indeterminado. Este ano, o meu curso é sobre a Ética de Spinoza e o nascimento da racionalidade moderna em Amsterdam no século XVII… o assunto parece estar bem longe do Brasil, mas foi justamente nessa época que surgiram na historia as trocas com o Brasil, mais especificamente através dos mercadores de Amsterdam. O pesadelo do Spinoza!

O que foi que o Rio mudou em você?
Eu mudei no sentido inverso ao dos primeiros Europeus que colonizaram o Brasil. Para eles, a Europa não era o centro do mundo, pois o Centro do mundo era há séculos antes deles em Jerusalém. Mas quando colonizaram a América, passaram a considerar a “metrópole” como o ponto central. Assim que, paradoxalmente, o Brasil ajudou a Europa a se considerar como o centro do mundo. Quando eu vim para cá, tive a sensação de estar fazendo o caminho inverso. Não só o Brasil me convida a me descentralizar, mas o dia-a-dia é tão desarticulado que nos temos que aprender a viver quase sem centro – mesmo fisicamente. Por exemplo, no Rio raramente a gente escuta uma só musica de cada vez. O que o ouvido europeu percebe como sendo uma cacofonia, (duas musicas não sincronizadas tocando ao mesmo tempo), aqui faz parte de um espaço sonoro múltiplo. No filem Orfeu Negro (1953), Marcel Camus respeita isso fielmente: mesmo por trás da mais doce Bossa Nova, há sempre um sambinha. Isso é o Rio!

O que significa ser Carioca, para você?
Eu ainda não sei muito bem que tipo de carioca eu sou, e ainda menos se existe um jeito único de ser carioca. Mas eu arriscaria dizer que ser Carioca é tentar o tempo todo juntar coisas contraditórias: ser ao mesmo tempo muito urbano e estar em contato permanentemente com a floresta e com o mar; estar ao mesmo tempo no meio da multidão e muito isolado, sentir-se simultaneamente longe do mundo e no coração do mundo. Essas contradições tem aqui uma dimensão extraordinária. Ser carioca é vive-las... sem explodir completamente.

Se você tivesse que escolher um lugar do Rio, qual seria?
A praia da Urca resume tudo o que a cidade me inspira: um lugar maravilhoso, um bairro encantador, onde a vista da Baia de Guanabara é sem duvida uma das paisagens mais bonitas do mundo. Infelizmente não se pode nadar nela; a agua está muito poluída, porque nenhuma politica de limpeza das aguas acompanhou o crescimento da cidade. Esse é um dos exemplos do encanto desencantado da cidade. O Rio é às vezes sublime, às vezes sórdido, às vezes as duas coisas ao mesmo temo. Essa beleza, como disse François Truffaut, “é uma alegria e um sofrimento”.

O Rio em três palavras:
Explosão. Gozo. Caos.

publié le 02/10/2015

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