Os Franceses do Rio - abril de 2016

Todo mês, apresentamos a vocês um rápido encontro com Franceses que decidiram vir morar no Rio. Algumas perguntas, sempre as mesmas, traçam os seus perfis e permitem que conheçamos nossa comunidade um pouco mais.

Zaven Paré: ““O mar e a montanha são eternos”

JPEG
Zaven é artista plástico e trabalha com elementos de robótica. Aos 55 anos, ele tem dois filhos e mora no Rio há mais de 20 anos.

Cidade natal: Paris

Bairro do Rio: Jardim Botânico

Porque você escolheu o Rio?
Foram varias circunstâncias, entre elas motivos familiares, para que as crianças pudessem crescer ao ar livre. Além disso, sem duvida tínhamos a impressão de que havia no Rio certa civilidade, como na Paris de trinta anos atrás. Pode ser que não seja mais o caso hoje em dia, mas em todo caso o Rio continua sendo um lugar belíssimo.

Na verdade eu não tenho nenhuma atração pelo exotismo como os turistas e os franceses em geral imaginam, principalmente não tenho nada a ver com a cultura praieira carioca. Moro no Rio e poderia provavelmente morar em qualquer outro lugar, para tentar me afastar um pouco da França. Finalmente e principalmente, gosto de morar no Rio para poder passear quase todo dia no Jardim Botânico.

Quais foram as suas primeiras impressões quando você chegou por aqui?
Aqui tudo é bonito, o clima é quase sempre bom, até quando chove: viver cercado de coisas bonitas é mais fácil.
Em Paris, se você parar no fim de uma rua e olhar para a outra ponta, a sua visão será obstruída pelos edifícios, que nos remetem sempre a fatos históricos. Aqui, é a topografia que revela a passagem do tempo; o Pré-cambriano é um período geológico que aconteceu há apenas alguns bilhões de anos. Além disso, a presença do mar e da vegetação compõem um cenário majestoso.

Qual a sua ocupação profissional, o seu compromisso, a sua principal atividade atualmente?
Sou artista plástico e pesquisador, artista durante a semana, e posso dizer que trabalho com robótica nos fins de semana. Cometo coisas em diversas formas de expressão plástica, inclusive o Centro de Artes de Enghien-les-Bains (nos arredores de Paris) acaba de dedicar uma grande exposição ao meu trabalho artístico. Atualmente sou pesquisador convidado pela COPPE (UFRJ) na área de inteligência artificial, e colaboro com diversas iniciativas no ramo das artes e ciências, principalmente no Japão.

Durante os últimos anos, tive também a oportunidade de participar em prestigiados projetos e exposições gráficas no Rio de Janeiro como cenógrafo e grafista, principalmente no CCBB (como a grande exposição O Surrealismo, em 2001) e em varias edições de festivais como colaborador em diversos projetos como Anima Mundi e Rio Cena Contemporânea.

O que é que o Rio mudou em você?
Com relação ao Rio, com certeza eu devo ter uma espécie de abnegação, porque é muito difícil conseguir se estabelecer profissionalmente nesta cidade. Para quem chega de fora (e não só de fora do país), mas quem não faz parte de certa forma do circulo social carioca, e se não vier como colonizador, tem que começar de zero. Aqui no Rio, a gente tem que se reinventar o tempo todo.

Ser Carioca, para você é o quê?
É se perguntar todo dia: porque é que se mora num balneário?

Se você tivesse que escolher um lugar do Rio, qual seria?
Seria o lugar onde eu passo a maior parte do tempo, ou seja, no meu ateliê.

O Rio em três palavras:
Vou aproveitar o que Oscar Niemeyer respondeu a esta pergunta, quando lhe perguntaram numa entrevista o que ele achava de especial na cidade: “O mar e a montanha, que são eternos”.

Stéphane Javelle: “O Rio é contraditório, vivo, dinâmico!

JPEG
Stéphane é pintor de arte decorativa. Com 50 anos, ele tem um filho e mora no Rio há 25 anos.

Cidade natal: Saint-Denis

Bairro do Rio: Copacabana

Porque você escolheu o Rio?
Porque o meu irmão morava aqui, vim para encontrá-lo.

Quais foram as suas primeiras impressões quando você chegou por aqui?
Muita alegria, um clima ótimo e um mercado de trabalho propício.

Qual a sua ocupação profissional, o seu compromisso, a sua principal atividade atualmente?
Sou pintor de arte decorativa.

O que é que o Rio mudou em você?
O Rio me permitiu, ou melhor, me deu a oportunidade de realizar os meus desejos, tanto profissionais quanto pessoais; em outras palavras, o Rio me deu confiança no meu taco.

Ser Carioca, para você é o quê?
Ser carioca? É ser reativo, criativo, ativo.

Se você tivesse que escolher um lugar do Rio, qual seria?
O Parque Lage.

O Rio em três palavras:
Contraditório, vivo, dinâmico.

Tania Alice: “O Rio é caótico, encantador, cheio de contrastes!

JPEG
Tania é artista, terapeuta e pesquisadora na UNIRIO. Aos 39 anos, ela tem uma filha de 15 que se chama Lune e mora no Brasil a 13 anos, dos quais 8 no Rio.

Cidade de origem: Marseille

Bairro do Rio: Laranjeiras

Porque você escolheu o Rio?
Quando eu terminei meu doutorado, me deu vontade de vir morar e trabalhar no Brasil. Sou franco-brasileira, o meu pai foi estudar na Europa quando era bem novo, e lá eu nasci. Tive a sorte de poder fazer os meus primeiros trabalhos artísticos e estudar na França, depois achei justo vir compartilhar a minha experiência e o meu aprendizado aqui no Brasil, onde vive a família do meu pai.
Com a minha filha, primeiro moramos no Ceará, onde eu criei uma companhia de teatro com a qual montei vários espetáculos e fiz turnês por lá; depois fui trabalhar em Minas Gerais, dando aulas de teatro e aprofundando o meu trabalho na Universidade de Ouro Preto. Eu sempre tinha sonhado em morar no Rio, então quando passei no concurso publico da Universidade para ser artista-pesquisadora e professora na Universidade Federal do Rio (UNIRIO), deixei Belo Horizonte e vim morar aqui, com grande alegria. Imediatamente eu me senti em casa.

Quais foram as suas primeiras impressões quando você chegou por aqui?
O que mais me impressionou logo de cara foi a desigualdade social, mas também os sorrisos simpáticos, as pessoas andando de roupão pela rua indo para a piscina, as crianças fantasiadas de princesa e de super-herói o ano todo, a criatividade no dia-a-dia, o incrível investimento feito para o Carnaval, a natureza e a civilização andando lado a lado, os comentários machistas, a musica, o fato de termos varias cidades numa cidade só, as dificuldades e o encantamento cotidianos, a presença constante da praia, a total falta de logica na organização dos transportes públicos, a posição do Cristo conforme o bairro em que se está, o costume de segurar a bolsa das pessoas que estão em pé no ônibus, a maneira de dirigir... São tantas coisas!

Qual a sua ocupação profissional, o seu compromisso, a sua principal atividade atualmente?
Sou artista performática e trabalho com projetos artísticos fazendo uma intersecção de projeto social com projeto terapêutico. Depois de ter trabalhado durante cinco anos como diretora artística do Coletivo de Apresentação “Heróis do Cotidiano” e de ter realizado diversas intervenções urbanas em grupo e individuais, decidi junto com alguns parceiros montar a estrutura do projeto “Performers sem Fronteiras”, que estamos desenvolvendo agora. Somos um grupo de artistas performáticos e terapeutas também – eu sou terapeuta em Experiência Somática, uma técnica desenvolvida por Peter Levine, que possibilita a cura de traumas ajudando o sistema nervoso a se auto regular – para trabalhar as áreas de conflito, áreas de traumas passageiros e crônicos através da arte. Realizamos algumas intervenções no Nepal quando houve o terremoto, e também no Haiti e no Chile, e esse ano fomos a Bruxelas, logo depois dos atentados.
Eu alterno, portanto, meu trabalho artístico individual com o trabalho de criação em grupo, ligado a um projeto de pesquisa que eu estou desenvolvendo na UNIRIO; também acompanho projetos artísticos de Mestrado e Doutorado, dou aulas nos cursos de Graduação, Mestrado e Doutorado e participo de juris artísticos, além de outras atividades solicitadas pela Universidade.

O que é que o Rio mudou em você?
O Rio me fez ficar mais atenta no dia-a-dia: atenta aos outros, às dificuldades, às agressões, às pequenas gentilezas e delicadezas, às deficiências do serviço publico, aos caminhos tortos que temos que criar no dia-a-dia. Morando no Rio, temos que desenvolver a criatividade para encarar as mil dificuldades cotidianas com paciência, humor e gentileza. O Rio é uma cidade que me acolheu e que continua a receber de braços abertos o meu trabalho, minhas lutas engajadas e o meu desejo de criar coletivamente outras maneiras de vivermos juntos nesse mundo.

Ser Carioca, para você é o quê?
É saber apreciar o fato de estarmos vivos, a cada dia, apesar da violência, das injustiças, das dificuldades administrativas, da falta de serviços públicos que funcionam (escolas, hospitais, administrações...), a corrupção e a intolerância das pessoas que deveriam nos representar politicamente, entre outros. É também ser solidaria no dia-a-dia com todo mundo, porque é a única forma possível de sobrevivência. Fora isso, é também poder ir às reuniões mais importantes de chinelo, é cantar na rua, reclamar quando a cerveja não esta estupidamente gelada... É poder teoricamente ir à praia todos os dias da semana, nunca enfrentar e sempre se esquivar e virar especialista na arte de “dar um jeitinho”.

Se você tivesse que escolher um lugar do Rio, qual seria?
A Praça São Salvador, com o seu chorinho no domingo de manhã, o samba no sábado à noite, as performances, as apresentações de circo toda terça-feira e outros espetáculos também, os artistas, professores e alunos que organizam debates públicos, e principalmente por ser um ponto de encontro para antes e depois de todos os programas, para conversar, tomar uma cerveja e encontrar os amigos. É um ponto de encontro democrático, de muita interação.

O Rio em três palavras:
Caótico, encantador, contrastado.

Serge Ortega: “Rio, isso sim!

JPEG
Serge tem 80 anos e mora no Rio a 53 anos “bem vividos”. Geólogo de profissão e apaixonado por historia, ele coleciona e confecciona mapas e informações sobre o Rio e arredores.

Cidade natal: Mostaganem (Argélia)

Localidade do Rio: Maricá

Porque você escolheu o Rio?
Quando eu resolvi mudar de país, primeiro eu fui para São Paulo, onde moravam os meus primos. Bastaram duas ou três viagens ao Rio para que eu mudasse de ideia. A escolha foi fácil. Eu nasci num país onde faz muito sol. Passei a infância e a adolescência perto do mar. Eu já tinha sofrido um bocado em Clermont-Ferrand, durante os meus três anos de universidade. E ali estava eu, me arriscando a ter que ver o sol nascer no céu cinzento, a passar os dias sem cor e os fins de semana sem alegria. E ainda por cima teria que enfrentar a falta de humanização da megalópole paulista. Sendo assim, o que é que eu podia fazer? O passar dos anos me mostrou que eu fiz a escolha certa.

Quais foram as suas primeiras impressões quando você chegou aqui?
Minha chegada foi tumultuada. Em 1963, o Brasil ainda era bem Tupiniquim. Naquela época, a Air France pousava em Viracopos, depois de uma escala no Rio. O antigo Galeão era, digamos... surpreendente! O aeroporto tinha uma só sala de espera. Os passageiros em transito ficavam misturados com os que desembarcavam e principalmente com uma multidão que ia receber quem chegava, além dos carregadores, os cambistas e mais um bando de gente que não tinha mais o que fazer. Todos falando muito alto, rindo, se beijando, se abraçando, batendo nas costas uns dos outros, e tudo aos berros, gritando mesmo. Juro que eu NUNCA tinha visto tamanha bagunça. No meio disso tudo, um alto falante emitia ruídos e eu não entendia uma só palavra do que devia ser o anuncio do meu embarque.
O aeroporto de Viracopos estava quase deserto. Fiquei procurando meus primos, que deviam ir me buscar. Nada dos primos. Fiquei lá plantado, desamparado. Peguei um taxi, um carro tipo americano, e cheguei de surpresa. A carta anunciando a minha vinda nunca tinha chegado.
Para completar, três horas depois caiu uma tempestade. Era o mês de março, e eu tive direito a um temporal de fim de verão. Em poucos minutos, a rua - que era uma ladeira - virou um rio caudaloso como eu nunca tinha visto. Fiquei impressionado, abestalhado, perplexo.

Qual a sua ocupação profissional, o seu compromisso, a sua principal atividade atualmente?
O meu primeiro emprego foi como Geólogo. Eu saia à procura de feldspato e caulim em Minas Gerais, e tinha uma base no Rio. Foi assim que eu conheci o interior do Brasil e a sua historia. Depois, fui diretor de uma estação de aguas, também em Minas Gerais e com sede no Rio. Lá eu conheci o turismo brasileiro e o comércio de bebidas. Em seguida, me tornei representante de turismo receptivo para uma rede internacional franco-europeia. E finalmente tive a minha própria agencia. Tudo isso me deu um conhecimento razoável do Brasil, e principalmente do Rio. Conhecimento esse que eu nutro carinhosamente com a minha paixão pela cultura brasileira e carioca, que eu satisfaço com longos passeios pelas ruas mais antigas, visitando os sebos. Alimento até hoje solidas e sinceras amizades com colegas que sabiam mais do que eu sobre as coisas do Brasil e do Rio, sobre as coisas de antigamente.
Hoje estou aposentado, às vezes me vejo meio desocupado, meio solto. Então aproveito para ruminar meus mapas, faço desenhos do Rio e do Grande Rio nos quais vou colocando um pouco do que eu sei e do que eu gosto.

O que é que o Rio mudou em você?
Aqui eu descobri que a vida pode ser malvada, só se a gente quiser.

Ser carioca, para você, é o quê?
É saber ver que a vida é bela, mesmo nos dias mais chatos.

Se você tivesse que escolher um lugar do Rio, qual seria?
“Êta pergunta difícil!” Acho que eu escolheria um canto qualquer da periferia, que fosse perto ou longe. Nesses lugares tudo é mais colorido, alegre, vibrante e acolhedor. Quase sempre há uma mistura de coisas, mas as pessoas são tão verdadeiras!

O Rio em três palavras:
Rio, isso sim!

publié le 28/04/2016

haut de la page