Os franceses do Rio - julho de 2016

Todo mês, apresentamos a vocês um rápido encontro com Franceses que decidiram vir morar no Rio. Algumas perguntas, sempre as mesmas, traçam os seus perfis e permitem que conheçamos nossa comunidade um pouco mais.Este mês, damos a palavra a quatro franceses que vieram morar no Rio.

Tania da Costa: "Rio écontradição, imaginação e adaptação".

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Tania da Costa é franco-brasileira. Atriz e professora de francês no Rio, ela voltou ao Brasil depois de ter vivido 20 anos na França.

Qual a sua cidade natal?
Curitiba, se mudou para França quando tinha 9 anos e morou lá 20 anos.

Em que bairro do Rio você mora?
Flamengo

Porque você escolheu o Rio?
Foi uma vota às origens! Eu nasci em Curitiba por acaso, de uma família carioca. Viemos para o Rio quando eu tinha dois anos, e aqui fiquei até os 9 anos. Na época da ditadura brasileira, nos mudamos para a França, moramos em Grenoble e depois em Paris. Voltamos por um tempo durante a minha adolescência, foi um período conturbado, em que a doença e a morte do meu pai me fizeram novamente “fugir” para a França. Passei, portanto, minha infância, a adolescência e quase toda a minha vida adulta em Paris. Voltar ao Rio foi como reatar com as minhas origens.

Quais foram as suas primeiras impressões quando você chegou por aqui?
Minhas primeiras impressões foram caóticas. É verdade que quando se chega da França é melhor não comparar, é preferível zerar o contador e se abrir para uma realidade diferente. Isso é muito importante para evitar o sofrimento: tudo aqui é muito diferente de lá: os hábitos e os costumes, o tempo, o funcionamento de todos os mecanismos! Minhas primeiras impressões foram as de uma estrangeira... Ironia do destino. Vim para reviver sentimentos do passado, mas na verdade eu tinha mudado muito durante o tempo que passei na França: eu não era mais a mesma pessoa!

Qual a sua ocupação profissional, o seu compromisso, a sua principal atividade atualmente?
Durante 20 anos, fui atriz na França. Estudei artes dramáticas na rue Blanche e na Escola Superior de Artes e Técnicas de Espetáculos. Trabalhava no teatro, no cinema e na TV. Quando eu cheguei aqui, tive também um choque profissional. Não é fácil ser atriz de teatro e morar numa cidade que serve de palco para as maiores redes de televisão.

Rapidamente eu comecei a dar aulas de conversação em francês, para sustentar as minhas filhas. Graças às bolsas escolares da França, elas puderam frequentar uma boa escola, o Lycée Molière. Aprendi a gostar do que faço, é uma profissão ligada à comunicação e à convivência. Tenho a sorte de poder compartilhar o meu amor pela França. Embora seja um trabalho instável, tenho a vantagem de poder subir no palco de vez em quando, ou de participar de filmes e telenovelas. Acabei desenvolvendo a minha própria técnica.

O que é que o Rio mudou em você?
O Rio me ensinou a ser mais tolerante, a entender que as coisas não funcionam sempre como a gente quer, e que não podemos nos agarrar demais às nossas convicções nem ser muito rigorosos. É preciso ter certa flexibilidade!
Todo dia eu aprendo um pouco melhor como viver aqui, não é uma coisa automática. Como bem disse Tom Jobim: “O Brasil não é pra principiantes”!

Ser Carioca, para você é o quê?
Ser Carioca é ser capaz de aproveitar o que a cidade nos oferece de indiscutivelmente belo, magnifico e magico! Essa paisagem extraordinária, esse clima incrível, esse céu azul, esse jeito às vezes tranquilo de resolver as coisas. Ser Carioca é saber fazer parte desse cenário e de aproveitar, vivendo de maneira plena e sem sofrimento.

Se você tivesse que escolher um lugar do Rio, qual seria?
Se eu tivesse que escolher um lugar do Rio, seria exatamente o lugar onde estou: o Flamengo! Gosto do meu bairro, moro perto do Aterro e da praia, que não é apropriada para o banho de mar, mas que tem uma vista insuperável do Pão de Açúcar, da ponte Rio-Niterói e do aeroporto Santos Dumont. Os passeios a pé ou de bicicleta são incríveis!
É um bairro agradável, onde temos uma mistura da classe média do Flamengo com o comércio popular do Catete, com as suas casas coloniais... Não é um bairro esnobe! Estou perto de tudo e nos fins de semana posso aproveitar para ir passear de bicicleta no Porto Maravilha, no MAM, na Praça XV, ir ao museu MAR, ao Museu do Amanhã, ao Morro da Conceição… É muita sorte poder estar a 10’ do centro, a 5’ da Lapa, 10’ do Leme, com duas estações de metrô perto de casa… Não falta nada, estamos muito bem aqui!

O Rio em três palavras:
Contradição, Imaginação, Adaptação.

Nadine Gonzalez: "Rio é um lugar sensual e paradoxal, onde tudo é possível!"

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Nadine tem 41 anos e vive há 11 anos no Rio. Ela é co-diretora da Casa Geração, escola de moda no Vidigal.

Qual a sua cidade natal?
Lyon.

Em que bairro do Rio você mora?
Moro no Vidigal, depois de ter morado em quase todos os bairros do Rio.

Porque você escolheu o Rio?
2005 foi o ano da França no Brasil, e como eu era jornalista de moda eu tinha escrito e lido muitas coisas sobre o Brasil e a moda brasileira. Mas não fui eu que decidi vir para o Rio, foram os meus amigos que resolveram me dar de presente no meu aniversario de 30 anos uma passagem de avião para o Rio… Três meses mais tarde, eu voltei para cá tendo em mente a ideia de escrever outro livro sobre um “caso dentro de um caso”, na verdade sobre uma favela onde eu poderia criar um projeto social, aproveitando a minha experiência profissional.

Agora está chegando a hora de voltar para a França; os 10 anos que eu passei aqui me proporcionaram um belíssimo aprendizado e com isso posso fazer uma revolução criativa nas periferias francesas. Minha sócia continuará à frente da escola e da agencia de criação dos ex-alunos, e eu vou vender o trabalho deles no mercado europeu, além de voltar de vez em quando para ajudar a revelar os novos talentos da moda, expandindo os horizontes e criando uma rede internacional de jovens talentos da periferia, permitindo o intercambio internacional entre eles.

Quais foram as suas primeiras impressões quando você chegou por aqui?
A riqueza criativa e humana das pessoas, sem falar na beleza da cidade...

Qual a sua ocupação profissional, o seu compromisso, a sua principal atividade atualmente?
Há dez anos eu dirijo a ModaFusion, junto com a minha sócia Andrea Fasanello, que é uma associação que identifica, prepara e insere os talentos das favelas no mercado de trabalho. Depois de termos incentivado durante vários anos a emancipação criativa e financeira de mulheres, resolvemos criar há três anos uma escola de moda no Vidigal, a Casa Geração Vidigal, que é gratuita para os jovens das favelas. Os resultados, principalmente no que se refere à inserção profissional, são tão positivos, que nós resolvemos replicar o mesmo modelo em outras periferias do mundo; estamos preparando as escolas de São Paulo e de Paris, e dentro de dez anos esperamos estar presentes em todos os continentes.

O que é que o Rio mudou em você?
O Rio me trouxe realização pessoal como mulher, e profissional porque aqui eu pude realizar o meu sonho, de dar uma oportunidade aos jovens estilistas de revelarem os seus talentos.

Ser Carioca, para você é o quê?
É ser malandro e ser gentil, acima de tudo é saber aproveitar os prazeres da vida.

Se você tivesse que escolher um lugar do Rio, qual seria?
Eu adoro o bairro do Vidigal, que é contemporâneo, interativo, inspirador e cheio de vida!

O Rio em três palavras:
Sensual e paradoxal, onde tudo é possível, tanto o melhor quanto o pior!

Farida : Rio é “A gente se fala”!

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Farida tem 37 anos e mora há 6 anos no Rio. Ela trabalha para a associação Solidariedade França-Brasil.

Qual a sua cidade natal?
Le Mans.

Em que bairro do Rio você mora?
Santa Teresa.

Quais foram as suas primeiras impressões quando você chegou por aqui?
Quando eu vim ao Rio de férias em 2007, foi a primeira vez que eu estive numa cidade onde as pessoas eram “parecidas” comigo. Os brasileiros, especialmente os cariocas são muito abertos e tem curiosidade em relação aos estrangeiros e às diferenças. Nunca vi isso em nenhum outro lugar, fiquei literalmente impressionada. Eu nasci na França, meus pais vinham de outro continente, então a cultura, as tradições e os valores são completamente diferentes. Eu sempre me senti diferente na minha terra natal, a França, e no país de origem dos meus pais também. Aqui no Brasil, eu me senti “em casa” rapidamente, especialmente no Rio.

Porque você escolheu o Rio?
Como eu estava dizendo, é uma cidade onde eu me sinto “em casa”... O Rio é uma cidade que tem tudo a ver comigo.
Primeiro eu passei um mês de ferias aqui e quando eu voltei para a França, resolvi mudar de profissão de publicitaria para retornar à minha primeira carreira, em Relações Internacionais. Voltei a estudar e fiz um segundo Mestrado sobre Cooperação entre a Europa e a América Latina na escola IHEAL, e ao mesmo tempo comecei a entrar em contato com várias ONGs do Estado do Rio, com um objetivo especifico: eu queria trabalhar com educação nas periferias, nos bairros mais desfavorecidos e afastados do centro da cidade. Antes mesmo do inicio desse Mestrado, encontrei uma ONG que estava justamente trabalhando com os dois assuntos que eu buscava: a Solidariedade França-Brasil.

Fiquei fascinada com essa ONG, que faz um trabalho admirável na Baixada Fluminense, que representa 25% da população do Estado do Rio, onde os índices são preocupantes e o governo é quase ausente... A Solidariedade França-Brasil luta, há mais de 30 anos, para que as crianças tenham acesso à educação e à saúde, e é uma das poucas ONGs presentes nessa região!

Qual a sua ocupação profissional, o seu compromisso, a sua principal atividade atualmente?
Atualmente, sou responsável pela comunicação na Solidariedade França-Brasil. Estou mais envolvida do que nunca e acredito piamente em nossa missão: a defesa dos direitos das crianças, para que tenham acesso à saúde e educação. É através do treinamento dos educadores e também de nossa participação nas politicas publicas que nos fazemos de tudo para participar desse projeto, para abrir o acesso a uma educação de boa qualidade. Nosso diferencial, o que aos meus olhos é fundamental, é o fato de trabalharmos em lugares aonde ninguém vai, onde as necessidades são gritantes, e principalmente, pelo fato de desenvolvermos ações baseadas em iniciativas locais! Nos não inventamos projetos para tal ou tal comunidade, nos tentamos responder da melhor maneira possível às expectativas, trabalhando ao lado das pessoas que batalham todo dia pelo acesso à educação e à saude de boa qualidade para as crianças brasileiras

O que é que o Rio mudou em você?
O Rio não mudou nada em mim... Hoje eu sou a mesma pessoa que eu era em 2010, mas estou mais realizada porque moro numa cidade que tem tudo a ver comigo!

Ser Carioca, para você é o quê?
É muito difícil responder a essa pergunta, alias eu nem posso responder, porque os meus amigos cariocas são todos muito diferentes uns dos outros, então para mim não existe uma “carioca típico”... e é exatamente isso que eu gosto aqui!

Se você tivesse que escolher um lugar do Rio, qual seria?
Praça da Harmonia (na Gamboa)

O Rio em três palavras:
Em 3 +1 palavra: “A gente se fala”.

Max Kabir: Rio é “A vida é bela”.

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Max nasceu e foi criado no Rio. Francês por filiação, ele tem 17 anos e estuda no "Lycée Molière"

Qual a sua cidade natal?
Eu nasci no Rio, sou francês por filiação.

Em que bairro do Rio você mora?
Laranjeiras.

Porque você escolheu o Rio?
Foi a vida que escolheu por mim.

Quais foram as suas primeiras impressões quando você chegou por aqui?
Eu nunca morei em outro lugar, mas em todo caso eu continuo a conhecer a cidade e gosto muito de viver aqui.

Qual a sua ocupação profissional, o seu compromisso, a sua principal atividade atualmente?
Sou estudante, estou no 3° ano do ensino médio no Lycée Molière. Fora isso, ando de skate e jogo bola.

O que é que o Rio mudou em você?
Nada, sou essencialmente brasileiro.

Ser Carioca, para você é o quê?
É aproveitar a vida e ser feliz.

Se você tivesse que escolher um lugar do Rio, qual seria?
A praia.

O Rio em três palavras:
A vida é bela.

publié le 19/07/2016

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